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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Comportamento do Investidor I: Muita preocupação com o que menos importa

Uma das coisas que tenho tentado fazer nesses anos de wealth manager é observar o comportamento dos investidores em diferentes momentos do tempo. Felizmente, para esse tipo de exercício, eu pude viver de perto os acontecimentos de 2007, 2008, 2009 e 2010, e vou compartilhar um pouco do que percebi e não tenho muitas dúvidas de que se assemelhará com o que vocês sentiram/fizeram ou alguém próximo de vocês.

Na semana passada fiz aniversário e ganhei de presente uma das coisas que mais gosto de ganhar: um livro. É incrível como existe uma infinita biblioteca que ainda quero ler e o Marcel acertou em cheio ao me dar A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, que não é um lançamento mas felizmente estou lendo agora. Provavelmente vai me render algumas idéias para escrever aqui, já no início do livro já quero associar alguns trechos ao comportamento que percebo ao longo dos anos nos investidores do mercado financeiro.

Em linhas gerais, para também não contar tudo do livro e despertar o interesse de vocês em lê-lo, o que Teleb chama de Cisne Negro são os eventos inesperados que acontecem a todo tempo e realmente modificam a história. Ou seja, quanto de importância damos as causas e os efeitos de eventos óbvios/esperados e o quanto deixamos de nos ater a coisas que fogem do nosso radar e mudam substancialmente nossas vidas.

O que isso tem a ver com o que falamos aqui e com a vida financeira dos investidores?

Não só hoje aqui na Hollander, mas conversando com os profissionais do mercado financeiro que lidam com investidores e de acordo com a literatura técnica, as emoções acabam se sobressaindo a estratégia 
Alguns posts atrás eu falei um monte sobre riscos e algumas formas que analisamos os risco de mercado, liquidez, crédito etc., coisas importantes de se saber, que conseguem dar uma noção de ordem de grandeza, mas não é uma medida para o futuro e muito menos com alto grau de precisão. O mesmo podemos dizer sobre a expectativa de retornos, quando sempre ouvimos o bordão de mercado "rentabilidade passada não garante rentabilidade futura".

Quando fazemos um investimento devemos nos ater na estratégia e não na expectativa de retornos imediatos. Os investimentos que fazemos hoje são para obtermos resultados no futuro, ou seja, estamos muito mais sujeitos a encarar Cisnes Negros do que olhando para o que aconteceu no passado.
Mesmo que a todo momento nós economistas tentemos estudar tudo que já ocorreu para descrever padrões que um dia possam se repetir, tudo que realmente conseguimos (se formos bem sinceros) é perceber que podemos até saber bastante sobre o passado, mas cada vez mais sabemos menos sobre o futuro. Uma vez eu ouvi uma verdade sobre a minha ciência "os economistas usam informações passadas para prever hoje o que erraram no futuro".

Então o que estou dizendo é que meu trabalho não serve para nada, pois tudo é imprevisível? É claro que não. E mesmo que fosse isso eu não levantaria argumentos contra a minha profissão, certo?

Eu gostaria de usar novamente a analogia com os meus amigos médicos.
Se você precisar fazer um pequeno procedimento, extremamente simples como a retirada de uma verruga, provavelmente vai procurar o melhor médico que faça isso para você. Já pensou no porque quer sempre o melhor profissional, independente da complexidade do trabalho? Porque não são as coisas complexas e difíceis que promovem os melhores resultados ou as maiores catástrofes, mas as coisas simples que acabam gerando displicência aos despreparados.
Se você for fazer o laser na verruga e tiver uma parada cardíaca, quer ter o melhor médico do seu lado para salvar sua vida. E se não tiver a parada cardíaca, quer que sua verruga seja retirada sem deixar qualquer sinal ou cicatriz.
Cisnes Negros, bons e ruins, só parecem óbvios depois que eles acontecem. A prevenção e a habilidade de lidar com Cisnes Negros exige muito conhecimento, inteligência e capacidade profissional para se obter resultados de longo prazo.
Percebem que investir tem menos a ver com o quanto você ganha de dinheiro e mais com o quanto você é capaz de não perder. Quando se perde pouco e se ganha alguma coisa, mas com consistência, a combinação de anos e anos fazendo isso promove resultados realmente relevantes para a vida financeira das famílias. Esse é o princípio de se correr risco consciente e necessário para atingir os objetivos factíveis.

É isso que ocorre no mercado financeiro. Os investidores traçam expectativas muitas vezes sem nem ter conhecimento se elas são possíveis e muito menos sem considerar que as coisas podem dar mais errado do que se previa ou mais certo do que se imaginava. Parte do meu trabalho é alinhar expectativas, trazendo para a pauta o que é possível e o que não é, quais são os riscos inerentes e quais os ganhos mais prováveis, ajustar vontade com possibilidade, e ainda assim tenho que ter ciência de que Cisnes Negros acontecem o tempo todo e temos que ter estratégia para que eles não sejam os responsáveis pelas perdas irreparáveis ou pelos ganhos isolados ao longo de uma vida de investimento.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O que esperar do seu Wealth Manager ?

Primeiramente me desculpem pelos dias que fiquei sem escrever nada aqui. Não quero perder a frequência principalmente para que não deixemos as discussões esfriarem.

Como eu comecei falando da função de wealth manager, ainda acho que faltam alguns temas para abordarmos aqui antes de começarmos a falar de estratégias, ativos e economia.
Nos últimos dias tenho conversado com alguns amigos do mercado financeiro, alguns deles consultores financeiros e outros clientes de private banking. A percepção deles, assim como a minha, é de que as pessoas procuram wealth managers para obterem mais rentabilidade em suas aplicações financeiras, pura e simplesmente.
Muitas vezes vocês vão ver aqui a minha opinião sobre coisas que eu não acho certas no mercado e seus players, em especial a forma de atuação conflitante dos bancos, corretoras, agentes autônomos, alocadores, distribuidores etc., mas hoje eu vou focar na falta de alinhamento de expectativa entre as pessoas e o que pode fazer o seu consultor.

Sejamos técnicos. A teoria de investimentos diz que 85% do que explica a rentabilidade de um portfólio é o que chamamos de estratégia de investimento; 10% vem da tática; e 5% da sorte (estar no lugar certo na hora certa). Sendo assim, seu wealth manager deve cuidar dos seus recursos baseado sempre no planejamento financeiro de longo prazo. Ou seja, o primeiro passo para se perpetuar riqueza é cuidar do lado da saída de caixa e na sequência se preocupar com a alocação para obter retornos.

Vamos detalhar um pouco mais isso.
As decisões de utilização de recursos (sejam eles dinheiro, tempo, espaço, preocupação etc.) devem ser tomadas por especialistas pois são eles que tem a maior capacidade de reunir todas as informações e conhecimento disponível para que a decisão tomada seja a mais eficiente.
Se você vai pagar para ter o serviço de um wealth manager, como no caso de uma consulta ao ortopedista ou um tratamento saudável para perder peso e melhorar o condicionamento, o valor terá que se justificar. Automaticamente as pessoas associam a geração de valor à rentabilidade, o que não é totalmente correto, pois o início da geração de valor para o negócio de cuidar das riquezas está ligada a não desperdiçar recursos.
Desta forma, a melhor maneira de começar um relacionamento com a pessoa que vai auxiliá-lo nas decisões financeiras é descrever em forma de inventário todas as alocações em ativos, detalhando de que forma foram adquiridos (data, procedência, estrutura fiscal e como estão declarados no IR (se declarados)).
Tenho poucas dúvidas de que seu wealth manager vai identificar que:

a) alguns dos ativos que você adquiriu (fundos, CDBs, ações de algumas empresas) são redundantes e desnecessários no seu portfólio;
b) alguns ativos estão em estruturas mais caras, financeira e/ou fiscalmente falando;
c) você possui ativos incompatíveis com seu perfil de risco e seu horizonte de investimento (especialmente se for cliente de private banking);
d) a última vez que precisou de dinheiro, seja para trocar de carro, para comprar um apartamento ou fazer a festa de 15 anos da sua filha, você não desinvestiu do melhor lugar que poderia.

Esses são alguns dos valores que o wealth manager deverá criar para a sua vida financeira antes de começar a "palpitar" sobre quais são os melhores ativos ou os mais rentáveis fundos do mercado.
O princípio de enriquecer está em o quanto você salva de dinheiro e não no quanto você ganha.

Boa noite e até amanhã.