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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Nota no Valor Econômico

Concedi mais uma breve entrevista para o Guilherme Meirelles, do Valor Econômico, e saiu no jornal de hoje.

Patrimônio fermentado

  
Por Guilherme Meirelles | Para o Valor, de São Paulo

Nunca foi tão positivo o mercado para os profissionais dispostos a atender as demandas dos milionários brasileiros. De acordo com estudo produzido pela Merrill Lynch Global Wealth Management e pela consultoria Capgemini, o Brasil fechou o ano de 2010 com 155,4 mil pessoas com recursos líquidos para investir superiores a US$ 1 milhão. Uma comunidade endinheirada, que cresceu 6% em relação ao ano anterior e não dá sinais de retração. Para atender este público seleto, exigente e sofisticado, instituições financeiras, consultorias e escritórios de advocacia ampliaram os seus quadros e fornecem todo o suporte necessário para orientar, administrar e gerir a fortuna não apenas dessa, mas das futuras gerações de milionários.

Uma conjunção de fatores explica a ascensão dessa nova classe, que coloca o Brasil na 11ª posição do ranking dos milionários. Parte expressiva desse público surgiu em função da onda de operações de fusões e aquisições dos últimos anos. De acordo com estudo da Pricewaterhouse Coopers, apenas em 2010 foram registradas 797 fusões e aquisições, muitas delas envolvendo empresas familiares, gerando maior liquidez para a economia. E o ritmo continua em alta. No primeiro semestre, foram mais 359 negócios, o que permite antever a entrada de mais recursos financeiros a serem administrados no mercado. Some-se a isso o desempenho favorável da Bovespa entre 2007 e 2010, período em que teve valorização de 55,64%, além de uma onda de IPOs, atualmente em baixa.

Presente em 140 países e conhecida pela sua atuação no campo de auditoria, a KPMG abriu os olhos para este novo nicho e expandiu no Brasil seus departamentos de consultoria e planejamento tributário voltados para a monetização de ativos não monetários. "São casos de empresas familiares que foram vendidas ou de pessoas que se desfazem de imóveis e ficam milionárias do dia para a noite", explica Ricardo Anhesini, da área de financial services. Nesses momentos, a KPMG age como uma empresa de "family office", apontando os melhores caminhos fiscais e as opções mais rentáveis no mercado financeiro. "Há no Brasil um mercado de capitais maduro e é possível diversificar os investimentos de forma segura e transparente."
Anhesini nota diferenças entre o milionário brasileiro e o de outros países emergentes, como Índia e China. Ele cita a capacidade empreendedora, que o leva a buscar oportunidades na economia real e a não se satisfazer em apenas manter o dinheiro aplicado.

O crescimento no mercado de gestão de fortunas fez com que a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) lançasse, no fim do ano passado, uma regulamentação específica para os gestores de patrimônio. "Há dez anos havia cerca de dez gestoras de patrimônio e hoje são mais de 50", diz José Hugo Laloni, diretor da Anbima sobre gestão de patrimônio. O objetivo do Código Anbima de Regulação e Melhores Práticas para a Atividade de Gestão de Patrimônio Financeiro é normatizar regras que até então não existiam no Brasil, em moldes semelhantes às já praticadas pelos private banks. Embora não haja números precisos, Laloni estima que as gestoras sejam responsáveis por cerca de R$ 50 bilhões.

Os números oficiais existentes sobre as fortunas brasileiras são da própria Anbima, referentes à atuação do setor de private bank, que atendem clientes com mais R$ 1 milhão em recursos líquidos. Em junho, segundo relatório da entidade, o volume sob administração das 21 instituições financeiras autorizadas era de R$ 412,8 bilhões, o que representou um crescimento de 11,2% no ano e de 28% em 12 meses. A preocupação da entidade é propiciar cada vez mais profissionalização dos "bankers" (responsáveis pelo atendimento direto aos clientes) por meio da certificação CFP (Certified Financial Planner), conferida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros.
A Anbima enfatiza ainda junto aos seus associados a aplicação do conceito de "suitability" aos clientes, com o objetivo de conhecer seu perfil no que se refere a metas de investimento, tolerância ao risco e conhecimento técnico sobre o portfólio de produtos oferecido pela instituição. "Para quem tem grandes fortunas, valem sempre as regras de prudência, não colocar todos os ovos na mesma cesta e refletir sobre os riscos e consequências de cada ativo que é investido", aconselha Celso Portásio, diretor da Anbima.

Apesar de reconhecer os esforços em busca de profissionalização, o professor do Insper, Alexandre Chaia, percebe que ainda há desconfiança por parte das famílias na hora de escolher o gestor. Ele credita este sentimento, presente sobretudo em pessoas acima dos 45 anos, ao trauma dos planos econômicos nos anos 1980 e 1990. "A busca é mais por confiança e não tanto por eficiência profissional."
O que advogados recomendam é que se definam a priori quais os objetivos no momento de fazer um planejamento sucessório e patrimonial. "O que é indicado para um ativo imobiliário pode ser péssimo para quem optar por operações financeiras", afirma a advogada Andrea Nogueira, do escritório Velloza&Girotto. Um dos equívocos mais comuns, diz, é achar que a formação de uma holding é a melhor saída para o patrimônio de uma família. "É eficiente para transmissão de imóveis e participação societária. Mas desaconselhada para aplicações financeiras, em razão do imposto de 34% sobre os rendimentos."

Surgidas nos EUA no século 19, com as famílias Rockfeller, Carnegie e Pew, os chamados family offices - escritórios especializados em administrar fortunas de famílias - estão aproveitando o bom momento da economia. Como, em geral, atendem poucos clientes, todos na faixa de recursos líquidos entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões, buscam soluções personalizadas e pensando sempre a longo prazo. A vantagem apregoada em relação aos private banks é a independência na hora da escolha. "Nossa missão é buscar as melhores oportunidades em todas as áreas", diz Vinicius Gholmie, sócio da Holander Advisors Management, que administra recursos de cinco famílias. Estima-se que existam cerca de 40 escritórios, incluindo os single family offices, que administram recursos de uma única família, e os multi family offices.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Comportamento do Investidor I: Muita preocupação com o que menos importa

Uma das coisas que tenho tentado fazer nesses anos de wealth manager é observar o comportamento dos investidores em diferentes momentos do tempo. Felizmente, para esse tipo de exercício, eu pude viver de perto os acontecimentos de 2007, 2008, 2009 e 2010, e vou compartilhar um pouco do que percebi e não tenho muitas dúvidas de que se assemelhará com o que vocês sentiram/fizeram ou alguém próximo de vocês.

Na semana passada fiz aniversário e ganhei de presente uma das coisas que mais gosto de ganhar: um livro. É incrível como existe uma infinita biblioteca que ainda quero ler e o Marcel acertou em cheio ao me dar A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, que não é um lançamento mas felizmente estou lendo agora. Provavelmente vai me render algumas idéias para escrever aqui, já no início do livro já quero associar alguns trechos ao comportamento que percebo ao longo dos anos nos investidores do mercado financeiro.

Em linhas gerais, para também não contar tudo do livro e despertar o interesse de vocês em lê-lo, o que Teleb chama de Cisne Negro são os eventos inesperados que acontecem a todo tempo e realmente modificam a história. Ou seja, quanto de importância damos as causas e os efeitos de eventos óbvios/esperados e o quanto deixamos de nos ater a coisas que fogem do nosso radar e mudam substancialmente nossas vidas.

O que isso tem a ver com o que falamos aqui e com a vida financeira dos investidores?

Não só hoje aqui na Hollander, mas conversando com os profissionais do mercado financeiro que lidam com investidores e de acordo com a literatura técnica, as emoções acabam se sobressaindo a estratégia 
Alguns posts atrás eu falei um monte sobre riscos e algumas formas que analisamos os risco de mercado, liquidez, crédito etc., coisas importantes de se saber, que conseguem dar uma noção de ordem de grandeza, mas não é uma medida para o futuro e muito menos com alto grau de precisão. O mesmo podemos dizer sobre a expectativa de retornos, quando sempre ouvimos o bordão de mercado "rentabilidade passada não garante rentabilidade futura".

Quando fazemos um investimento devemos nos ater na estratégia e não na expectativa de retornos imediatos. Os investimentos que fazemos hoje são para obtermos resultados no futuro, ou seja, estamos muito mais sujeitos a encarar Cisnes Negros do que olhando para o que aconteceu no passado.
Mesmo que a todo momento nós economistas tentemos estudar tudo que já ocorreu para descrever padrões que um dia possam se repetir, tudo que realmente conseguimos (se formos bem sinceros) é perceber que podemos até saber bastante sobre o passado, mas cada vez mais sabemos menos sobre o futuro. Uma vez eu ouvi uma verdade sobre a minha ciência "os economistas usam informações passadas para prever hoje o que erraram no futuro".

Então o que estou dizendo é que meu trabalho não serve para nada, pois tudo é imprevisível? É claro que não. E mesmo que fosse isso eu não levantaria argumentos contra a minha profissão, certo?

Eu gostaria de usar novamente a analogia com os meus amigos médicos.
Se você precisar fazer um pequeno procedimento, extremamente simples como a retirada de uma verruga, provavelmente vai procurar o melhor médico que faça isso para você. Já pensou no porque quer sempre o melhor profissional, independente da complexidade do trabalho? Porque não são as coisas complexas e difíceis que promovem os melhores resultados ou as maiores catástrofes, mas as coisas simples que acabam gerando displicência aos despreparados.
Se você for fazer o laser na verruga e tiver uma parada cardíaca, quer ter o melhor médico do seu lado para salvar sua vida. E se não tiver a parada cardíaca, quer que sua verruga seja retirada sem deixar qualquer sinal ou cicatriz.
Cisnes Negros, bons e ruins, só parecem óbvios depois que eles acontecem. A prevenção e a habilidade de lidar com Cisnes Negros exige muito conhecimento, inteligência e capacidade profissional para se obter resultados de longo prazo.
Percebem que investir tem menos a ver com o quanto você ganha de dinheiro e mais com o quanto você é capaz de não perder. Quando se perde pouco e se ganha alguma coisa, mas com consistência, a combinação de anos e anos fazendo isso promove resultados realmente relevantes para a vida financeira das famílias. Esse é o princípio de se correr risco consciente e necessário para atingir os objetivos factíveis.

É isso que ocorre no mercado financeiro. Os investidores traçam expectativas muitas vezes sem nem ter conhecimento se elas são possíveis e muito menos sem considerar que as coisas podem dar mais errado do que se previa ou mais certo do que se imaginava. Parte do meu trabalho é alinhar expectativas, trazendo para a pauta o que é possível e o que não é, quais são os riscos inerentes e quais os ganhos mais prováveis, ajustar vontade com possibilidade, e ainda assim tenho que ter ciência de que Cisnes Negros acontecem o tempo todo e temos que ter estratégia para que eles não sejam os responsáveis pelas perdas irreparáveis ou pelos ganhos isolados ao longo de uma vida de investimento.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Quem pode ser o seu Wealth Manager?


Como a analogia entre finanças e medicina foi bem compreendida no post de ontem, vou continuar me utilizando deste recurso para falar hoje sobre como podemos escolher quem deve cuidar das nossas riquezas.

Voltando ao exemplo da cirurgia do meu joelho esquerdo, apesar de ser extremamente simples (aparentemente) precisei de uma série de procedimentos pré-operatório e pós-operatório, tão importantes quanto a cirurgia em si.
A preparação envolvia a análise do meu histórico de saúde familiar, exames de sangue, eletrocardiograma e internação em hospital especializado para o trabalho das enfermeiras e anestesista poder ser feito da melhor forma possível. A importância das atividades pré-operatórias é tão grande que pode ser fator condicional para o sucesso da operação.
No caso do pós-operatório não é muito diferente. Mais de 1 hora após terminar a cirurgia eu tive que permanecer em uma sala sob observação; fiquei no hospital até o final do dia (a cirurgia foi 8h da manhã) esperando o efeito da anestesia passar. Consultas ao médico, troca de curativos, acompanhamento da cicatrização e 20 sessões de fisioterapia, tudo isso para garantir que o trabalho feito obteve o resultado esperado - curar os problemas do meu joelho esquerdo.

Para consertar o meu joelho esquerdo não bastou escolher um médico ortopedista especializado, porque não é só o profissional que está envolvido no processo e não é só ele que pode comprometer o sucesso ou o fracasso de uma cirurgia.
Transportando para a realidade do mercado financeiro, para se fazer wealth management como indica a literatura não basta apenas um profissional capacitado. Não basta um banco grande e com estrutura (como o hospital). Não basta corretores, officers, fundos, relatórios etc. Wealth management precisa de tudo que há disponível para se tomar decisões e precisa ter acesso a todas as ferramentas que proporcionem ao processo transparência, eficiência e monitoramento.

No Brasil podemos ter acesso a este tipo de serviço, basicamente, através de Private Banking, Family-Offices e Consultores Independentes (os Agentes Autônomos de Investimentos acabam se confundindo, por enquanto, com consultores independentes devido a um impasse de regulamentação da CVM).
Grande parte da riqueza dos brasileiros com recursos investidos está sob a "tutela" dos private banking, que além de prestar o serviço de banking (conta corrente/investimento, cartão de crédito, internet banking etc), também vendem fundos proprietários, fundos de outros gestores, produtos de renda fixa proprietários, serviço de corretora de valores etc. A estrutura mais encontrada no mercado é a de gerentes de relacionamento (private banker) em conjunto com um consultor de investimentos, cuidam da carteira de investimentos do cliente.
Quando falamos de family-offices (ou as multi-family-offices, quando trata-se de várias famílias) o foco está no gererenciamento da riqueza de um grupo de pessoas da mesma família, que podem diferir em perfil de risco ou momento de vida, mas têm como objetivo comum perpetuar os recursos através das gerações. Ainda não é muito comum no Brasil, por exigir um grande volume de recursos para justificar a estrutura, porém vêm crescendo a passos largos com o aumento do número de milinários e bilionários.
Já os consultores independentes, por ainda não estarem devidamente regulamentados, acabam atuando vezes como family-officers outras vezes em parceria com bancos, asset managements ou corretoras (agêntes autônomos). Por enquanto vemos poucos atuarem realmente de forma independente, principalmente no que se refere a forma de remuneração.
Uma pequena reportagem da AE de Outubro/2009, falando sobre o que ela chama de 'butique de investimentos', vale ser lida como informação adicional.

Assim como na escolha de um médico para cuidar da sua saúde, o principal fator para escolha do seu wealth manager é a confiança que você consegue delegar a ele.
Como comparado acima, a importância de o wealth manager conhecer suas necessidade, seu fluxo de caixa, seus projetos de consumo, sua declaração de IR ou qualquer outra informação pertinente para que se possa traçar um plano financeiro, fiscal e sucessório é fundamental para o sucesso ou o fracasso do processo. Se você não puder confiar no seu wealth manager, não adiantará ele ser competente, ter estrutura operacional ou obter os maiores retornos. Lembre-se de que wealth management, bem como o conserto do meu joelho esquedo, não pode estar limitado apenas a "operação" para podermos esperar melhores resultados.