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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Risco é igual a Volatilidade? Não, é bem diferente!

Nós já falarmos aqui um pouco sobre tipos de Riscos e sobre atenções que devemos ter em cada um deles. O que costumamos ver no mercado financeiro é a simplificação de tudo que é Risco expresso em termos de Volatilidade. Então vamos tentar estabelecer diferenças fundamentais entre Risco e Volatilidade.
É oportuno falar disso logo depois de termos colocado aqui aquela opinião sobre a oportunidade de se investir em Renda Fixa por mais de 10 anos. Assim, eu vou usar este exemplo do post anterior para explicar um pouco sobre o conceito de Risco e Volatilidade.

Devemos chamar de Risco a probabilidade de perda permanente ao longo de todo período de investimento. Ou seja, é uma probabilidade ou uma distribuição de probabilidades associadas a uma mudança negativa de cenário e a quedas irreversíveis do preço do ativo em questão. Há diversas formas de medir Risco e existem vários tipos de Risco, que para cada ativo e cada análise se faz mais relevante.
Já a Volatilidade é o movimento de oscilação do preço do tal ativo. É o reflexo da mudança de opinião dos agentes financeiros acerca do cenário. Como os preços em geral são dados pelo valor presente estimado daquele ativo, este tende a oscilar para cima e para baixo o tempo todo e só se converte em perda ou em lucro em caso de realização (venda) do ativo. Em geral é medido pelo cálculo estatístico do desvio-padrão dos retornos do ativo/portfolio.

Apesar da diferença clara de conceitos, o mercado financeiro tende a se confundir e a confundir os investidores. Mas será que eles não sabem o conceito ou preferem ser simplistas por conveniência?
Acho que o ponto fundamental para respondermos essa questão é retomarmos o conflito permanente entre os agentes do mercado financeiro e os investidores, para exemplificar podemos tentar desenvolver um raciocínio de dois Focos que podem ser dado às visões dentro do mercado financeiro:

Foco no Presente é a busca por minimizar a oscilação dos preços
- Intensifica a análise na Volatilidade
- Olha para o % do benchmark no curto prazo (e.g. 105% CDI no mês ou no ano)
- Está preocupado com o preço que pode vender o ativo hoje
- Vemos esta visão comumente nos traders (agentes que compram e vendem várias vezes os ativos em curtos intervalos de tempo)

Foco no Futuro é a busca por reduzir a oscilação dos retornos
- Intensifica a análise do Risco
- Olha para a rentabilidade completa do investimento (do começo ao fim)
- Está preocupado com a preservação dos rendimentos ao longo de todo o tempo
- É a visão dos investidores e dos empresários

Voltando para a nossa opinião a respeito do mercado de Renda Fixa Prefixada (post anterior), podemos extrair uma boa aplicação dos conceitos abordados acima.
Se investirmos em um ativo de Renda Fixa que remunera 12% aa por 10 anos, teremos 159,4% de rendimento no período. Porém, no mercado futuro de juros, se essa taxa de 12% aa for para 12,1% amanhã, nós veremos uma oscilação negativa no preço do ativo, porque poderíamos ter 
ganhado mais investindo a 12,1% aa. Apesar desta Volatilidade do preço do ativo por conta da curva futura de juros, o nosso Risco está vinculado a mudança de cenário em 10 anos, ou seja, na probabilidade dos juros serem menores nesse período. Se a Economia está melhorando, há controle de inflação (não em 2011 ou 2012, mas ao longo de 10 anos) e melhora na confiança das contas públicas, é factível pensarmos em juros de 6% aa daqui a 10 anos.
Desta forma, vemos que o Risco em ficar investido indexado aos juros correntes, acreditando ser mais conservador, é o cenário mudar para juros de 6% aa e como o foco estava em não ter Volatilidade isso pode ter distanciado o seu ganho dos 159,4% no período para casa de 100,0% (assumindo um cenário de queda gradual de juros em 10 anos).

Para concluir, se você quer ser um investidor foque seus esforços em analisar os riscos de cada investimento, como um empresário faz com os riscos de seus projetos. O mercado financeiro é cíclico, dando oportunidades para quem tem foco no futuro e causando muita dor de barriga para que acredita poder enriquecer no curto prazo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Comportamento do Investidor I: Muita preocupação com o que menos importa

Uma das coisas que tenho tentado fazer nesses anos de wealth manager é observar o comportamento dos investidores em diferentes momentos do tempo. Felizmente, para esse tipo de exercício, eu pude viver de perto os acontecimentos de 2007, 2008, 2009 e 2010, e vou compartilhar um pouco do que percebi e não tenho muitas dúvidas de que se assemelhará com o que vocês sentiram/fizeram ou alguém próximo de vocês.

Na semana passada fiz aniversário e ganhei de presente uma das coisas que mais gosto de ganhar: um livro. É incrível como existe uma infinita biblioteca que ainda quero ler e o Marcel acertou em cheio ao me dar A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, que não é um lançamento mas felizmente estou lendo agora. Provavelmente vai me render algumas idéias para escrever aqui, já no início do livro já quero associar alguns trechos ao comportamento que percebo ao longo dos anos nos investidores do mercado financeiro.

Em linhas gerais, para também não contar tudo do livro e despertar o interesse de vocês em lê-lo, o que Teleb chama de Cisne Negro são os eventos inesperados que acontecem a todo tempo e realmente modificam a história. Ou seja, quanto de importância damos as causas e os efeitos de eventos óbvios/esperados e o quanto deixamos de nos ater a coisas que fogem do nosso radar e mudam substancialmente nossas vidas.

O que isso tem a ver com o que falamos aqui e com a vida financeira dos investidores?

Não só hoje aqui na Hollander, mas conversando com os profissionais do mercado financeiro que lidam com investidores e de acordo com a literatura técnica, as emoções acabam se sobressaindo a estratégia 
Alguns posts atrás eu falei um monte sobre riscos e algumas formas que analisamos os risco de mercado, liquidez, crédito etc., coisas importantes de se saber, que conseguem dar uma noção de ordem de grandeza, mas não é uma medida para o futuro e muito menos com alto grau de precisão. O mesmo podemos dizer sobre a expectativa de retornos, quando sempre ouvimos o bordão de mercado "rentabilidade passada não garante rentabilidade futura".

Quando fazemos um investimento devemos nos ater na estratégia e não na expectativa de retornos imediatos. Os investimentos que fazemos hoje são para obtermos resultados no futuro, ou seja, estamos muito mais sujeitos a encarar Cisnes Negros do que olhando para o que aconteceu no passado.
Mesmo que a todo momento nós economistas tentemos estudar tudo que já ocorreu para descrever padrões que um dia possam se repetir, tudo que realmente conseguimos (se formos bem sinceros) é perceber que podemos até saber bastante sobre o passado, mas cada vez mais sabemos menos sobre o futuro. Uma vez eu ouvi uma verdade sobre a minha ciência "os economistas usam informações passadas para prever hoje o que erraram no futuro".

Então o que estou dizendo é que meu trabalho não serve para nada, pois tudo é imprevisível? É claro que não. E mesmo que fosse isso eu não levantaria argumentos contra a minha profissão, certo?

Eu gostaria de usar novamente a analogia com os meus amigos médicos.
Se você precisar fazer um pequeno procedimento, extremamente simples como a retirada de uma verruga, provavelmente vai procurar o melhor médico que faça isso para você. Já pensou no porque quer sempre o melhor profissional, independente da complexidade do trabalho? Porque não são as coisas complexas e difíceis que promovem os melhores resultados ou as maiores catástrofes, mas as coisas simples que acabam gerando displicência aos despreparados.
Se você for fazer o laser na verruga e tiver uma parada cardíaca, quer ter o melhor médico do seu lado para salvar sua vida. E se não tiver a parada cardíaca, quer que sua verruga seja retirada sem deixar qualquer sinal ou cicatriz.
Cisnes Negros, bons e ruins, só parecem óbvios depois que eles acontecem. A prevenção e a habilidade de lidar com Cisnes Negros exige muito conhecimento, inteligência e capacidade profissional para se obter resultados de longo prazo.
Percebem que investir tem menos a ver com o quanto você ganha de dinheiro e mais com o quanto você é capaz de não perder. Quando se perde pouco e se ganha alguma coisa, mas com consistência, a combinação de anos e anos fazendo isso promove resultados realmente relevantes para a vida financeira das famílias. Esse é o princípio de se correr risco consciente e necessário para atingir os objetivos factíveis.

É isso que ocorre no mercado financeiro. Os investidores traçam expectativas muitas vezes sem nem ter conhecimento se elas são possíveis e muito menos sem considerar que as coisas podem dar mais errado do que se previa ou mais certo do que se imaginava. Parte do meu trabalho é alinhar expectativas, trazendo para a pauta o que é possível e o que não é, quais são os riscos inerentes e quais os ganhos mais prováveis, ajustar vontade com possibilidade, e ainda assim tenho que ter ciência de que Cisnes Negros acontecem o tempo todo e temos que ter estratégia para que eles não sejam os responsáveis pelas perdas irreparáveis ou pelos ganhos isolados ao longo de uma vida de investimento.