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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Entrevista para Valor Econômico

Segue um trecho do caderno especial Private Banking, no Valor Econômico de hoje. Tem algumas palavras minhas de uma entrevista dada na semana passada para o Guilherme Meirelles.

 
Family offices trabalham de olho no futuro
De São Paulo
10/08/2011

Reza uma lenda no mundo corporativo que assegura existir em todos os idiomas do planeta uma versão aproximada do dito popular "pai rico, filho nobre e neto pobre". Embora seja prematuro afirmar que este provérbio esteja com seus dias contados no Brasil, o crescimento de escritórios especializados em administrar a fortuna de famílias de empresários- os chamados "family offices"- atesta que já se consolidou a preocupação em não só preservar o patrimônio como também garantir o futuro das próximas gerações.
Estima-se que hoje existam cerca de 40 escritórios voltados exclusivamente para esta atividade, sendo que há dez anos havia apenas cerca de dez instituições. Especialistas supõem que o valor administrado por esses escritórios gire em torno de R$ 200 bilhões, montante que pode até ser maior já que o sigilo é condição primordial nesse setor.
"O ramo de family office é voltado para famílias que tenham recursos líquidos acima de US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. Abaixo desses valores, podem ser bem atendidas por private banks ou consultores independentes", afirma Vinicius Gholmie, sócio da Hollander Consultoria, que administra investimentos de cinco famílias.

Sem revelar os clientes, Gholmie diz que lida com R$ 930 milhões. Ex-executivo do Banco Votorantim, ele afirma que administrar os investimentos a partir de uma family office gera mais independência no momento da escolha, propiciando taxas mais rentáveis para os clientes.
É um ramo no qual a confiança deve permear a relação. Tanto por parte da família que contrata os serviços do gestor, como deste com as boas práticas do mercado financeiro. No final do ano passado, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) lançou um código de regulação e boas práticas para gestores de patrimônio, que contou com a adesão imediata de consultorias e escritórios de family office.
Depositar nas mãos de terceiros a administração de seus bens e investimentos é uma prática com mais de 200 anos na Europa e ganhou corpo a partir do século XIX nos Estados Unidos, com as famílias Rockefeller, Carnegie e Pew. Estima-se que os family offices administrem US$ 20 trilhões nos EUA atualmente.
Há basicamente, há duas modalidades: as single family offices que administram recursos de uma única família, e as multi family offices, caso da Hollander.
Entre as gestoras criadas para atender uma única empresa, está a Janos Participações, montada na década de 90 pelos três sócios da Natura - Antonio Luiz Seabra, Pedro Passos e Guilherme Leal - que além de administrar o patrimônio dos empresários, passou a tomar ações mais arrojadas, como investimentos em biotecnologia e setor de internet.
Foi a partir de uma single family office que o administrador paranaense Alexei Affonso Schrappe Antoniuk criou, há 10 anos, a Family Office, em Curitiba. Seu envolvimento com o patrimônio da família surgiu no final dos anos 90, com a venda da Impressoras Paranaense para o grupo Dixie Toga. "Com o tempo, fui procurado por pessoas do meu círculo de relacionamento e decidi criar uma empresa unicamente para este fim", afirma. (G.M.)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Será que ainda dá para ganhar dinheiro no Mercado Financeiro?

Andei ausente do blog nos últimos meses, peço desculpas àqueles que começaram a seguir e acabaram não tendo novidades vindas deste espaço. Agora voltei a todo vapor! Espero escrever alguma coisinha aqui pelo menos 2 ou 3 vezes por semana, falando de coisas do momento e atendendo a pedidos conceituais dos amigos e familiares. Justamente por isso resolvi voltar a escrever frequentemente.
Como faz tempo que não uso o blog, vamos aproveitar para falar de oportunidade de investimento combinada a alguns conceitos econômicos por trás disso.

Já estamos no final de Maio e as análises de todas as boas casas previam que este seria um ano de alta na bolsa. Até o momento, o Ibovespa acumula queda de 8,95% e deveriam questionar as previsões dos especialistas? Acredito que não, porém devemos ser mais minuciosos com nossas análises e separar alguns conceitos importantes que podem reforçar a nossa tese atual de oportunidade de investimento.
A principal porção do Ibovespa que contribuiu para esta forte queda foram as ações de empresas ligadas a commodities (especialmente metálicas), não porque sejam empresas ruins, mas existem preços na economia que são dados por um conjunto de fatores alheios a vontade dos investidores - a isso damos o nome de mercado internacional.
Não podemos deixar de comentar o desempenho das ações do setor financeiro, o que está intimamente ligado ao assunto que falaremos hoje e o conflito mais evidente que temos nos agentes econômicos brasileiros.
Algo que pode validar as previsões dos especialistas é que nem tudo vai mal na bolsa brasileira. Se olharmos o detalhe das relatórios do começo do ano, apesar de focarem sempre no Ibovespa, já há 2 anos pelo menos ouvimos falar do mercado local e de comprar ações de empresas vinculadas a melhora clara do poderde compra doméstico. Caros, isso não é Ibovespa. Apenas 20% do Ibovespa corresponde a cerda de 80% do PIB, ou seja, Ibovespa é mais mercado internacional do que local.Mas não se desesperem, tem gente especializada em analisar e investir em empresas fora do índice. Eu já falei sobre isso aqui, mas acho que desta vez vale citar alguns nomes de gestores especializados em investir em ações que já venho observando há alguns anos: Guepardo, Orbe, Quest e RB Fundamental. Ainda vale olhar para casas mais novas, como: Duna, JB, M Square, Mercatto, Iguana entre outras. Bom, recado dado para renda variável, vamos ao que interessa. Para mim, o momento é aproveitar a oportunidade do mercado Prefixado de Renda Fixa.

Primeiro o conceito econômico:
Diferentemente do que vemos no dia a dia do Jornal Nacional ou do Estadão, no país não existe apenas uma taxa de juros - a conhecida Selic ou (erroneamente) chamada de taxa básica. Dentro do mercado financeiro se trabalha uma outra taxa de juros, parecida com a Selic porém construida de forma completamente diferente, que os investidores até já se acostumaram - o tal CDI. (em um post de economia eu detalharei mais a diferença entre elas e em que momentos elas foram muito diferentes)
Se não bastasse termos essa diferença entre Selic e CDI, os investidores profissionais (tesourarias de bancos, fundos de investimentos, fundações etc) não olham apenas para a taxa de juros correntes, os atuais 12% aa (Selic) e 11,90% aa (CDI), tem acesso a um mercado pouco explorado pelos demais investidores, o mercado Futuro de Juros.

A função do mercado futuro de juros e mostrar como os agentes da economia estão descrevendo sua expectativas com relação a combinação Juros Real e Inflação. Isso posto, não podemos afirmar que os juros em uma determinada data no futuro será um valor ou outro, só podemos dizer olhando
para o mercado futuro as estimativas dos agentes.
Então o que podemos ler dos agentes na atual curva de juros?
Para isso o exercício matemático é um pouquinho mais chato, mas como eu já fiz vamos as conclusões:

- Até 2025 os agentes acreditam que os juros acumulados ficaram acima de 12% aa. Ou seja, mesmo que a eco ima melhore, que o país consiga crescer a taxas proporcionais a sua capacidade e que o mundo cresce em média de 4% a 5% aa, nossa taxa de juros (o custo de dinheiro) ao longo de 14
anos não cairá em momento algum;
- Para que isso seja factível, também vemos que a inflação não cederá abaixo de 5,8% aa em média, todos os próximos 14 anos. Ou seja, nossa inflação será durante 14 anos acima do crescimento mundial da economia.

Vamos mudar a pergunta para tentar esclarecer: será que ninguém do mercado fez essa conta, só nos? Por que os raposões do mercado estariam se comportando como coelhinhos?
Realmente nós não somos os "gurus ganhadores de dinheiro" no mundo. Mas desta forma, admitindo que as tesourarias dos bancos não viraram coelhinhos, podemos descrever o conflito mais presente na economia brasileira: autoridade monetária x tesourarias dos bancos.
Eu sei que já falei aqui da importância do constante conflito entre autoridade fiscal e autoridade monetária, porém sabem que no Brasil a autoridade fiscal é dada, não muda e é gastadora. Por isso eu chamo atenção para esta relação entre tesourarias e banco central.
Nos últimos meses vimos o banco central bater na tecla de que a inflação corrente já não tem como ser controlada por política monetária e que os ajustes de juros que eram necessário já tinham sido feitos. Por outro lado, frisava que as chamadas "medidas macro-prudenciais" passariam a ser mais utilizadas para conter o crédito e reduzir o ímpeto pelo consumo.

Pausa: devemos olhar para este discurso com bons olhos. O banco central mostrou lucidez ao entender que boa parte do efeito sobre os preços advém do mercado internacional (é, aquele mesmo que tem derrubado o Ibovespa) e que as altas dos metais e alimentos estavam próximas de arrefecer. Portanto, as consequências sobre os índices de preços domésticos acompanhariam isso. Mas isso só funciona se você combinar o jogo com os adversários.

Vamos aos raposões. Se você tem um banco que ganha mais dinheiro se ele aumentar o volume de empréstimos e cobrar mais por isso, por que raios você gostaria de colaborar com a queda dos juros e a diminuição do crescimento do crédito?
Durante anos, quando o banco central sinalizava alguma medida menos vantajosa para os bancos, os efeitos já eram conhecidos. Por serem os maiores operadores do mercado futuro de juros, principalmente os mais longos, as tesourarias usavam o seu poder sobre o mercado para abrir (elevar o nível) da curva de juros na parte mais longa; com isso, os investidores (estrangeiros) viam uma alta precificação de inflação para o futuro e rapidamente retiravam recursos do país; o efeito da saída de dólares é a depreciação do câmbio, o que por fim pressiona a inflação no curto prazo fazendo o banco central de
coelhinho e tendo que aumentar juros.

Historinha contada, será que estamos na mesma situação agora?
Dá pra dizer que não e que sim.
Primeiro que não existe mais pressão cambial contra o Real há algum tempo, pelo contrário, a pressão tem sido a favor. Isso enfraquece a "estratégia" na queda de braço das tesourarias.
Por outro lado, os bancos podem continuar expandindo o credito e contribuindo para aumento do consumo local, o que pode sim geral aumento nos preços.
O que vemos nas curvas futuras é que a tal queda de braço está nos gerando uma oportunidade interessante de ficar investidos Prefixados por mais de 10 anos à taxa superior a 12% aa. Isso quer dizer que você pode não ganhar muito dinheiro nos próximos meses, talvez até nos próximos 1 ou 2 anos, mas garantir um rendimento em Renda Fixa superior a 12% aa por mais de 10 anos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mas então onde está o RISCO?

Só para avisá-los que consegui resolver o problema dos comentários para quem não tem conta do Google. Como sou novato neste troço de blog, esqueci de permitir comentários de todas as pessoas. Agora sintam-se ainda mais a vontade para usar os espaços aqui apresentados para discutirmos idéias.

Toda vez que você vai investir seu dinheiro em qualquer tipo de investimento disponível hoje em dia, você se depara com algumas páginas de alertas sobre os riscos inerentes àquele movimento.

Nos fundos de investimentos, os órgãos reguladores obrigam os administradores a elencar todos os potenciais riscos que o cotista pode ter ao comprar cotas daquele fundo. Alguns deles assustam bastante como "caso o fundo tenha perdas superiores ao patrimônio líquido do mesmo, os cotistas serão chamados a aportar recursos adicionais para sanar as perdas", que em muitos dos casos nem é possível que ocorra.

Nas emissões de ações, debêntures, fundos imobiliários e outros ativos que são colocados no mercado via oferta pública, a seção de "Fatores de Riscos" também é de arrepiar. Nós sabemos que se cair um meteoro na Faria Lima pode fazer com que o preço dos imóveis na região caia; ou que se o governo tributar todos os investimentos do Brasil em 90% podemos ter uma grande fulga de recursos do mercado financeiro.
É claro que eu estou relacionado alguns dos pontos destoantes das exposições de risco que cada investimento tem que ter, mas o que eu quero mostrar aqui é que há talvez tanta informação que o investidor trivial pode acabar considerando risco demais onde não há ou pior focar em riscos que são pouco relevantes e não olhar para os que realmente importam.

No mercado financeiro, assim como em outras atividades, existem uma série de riscos os quais estamos expostos. Cada tipo de operação, cada ambiente de mercado, cada classe de investimento e cada ativo em si possuem um conjunto de riscos que são relevantes para serem analisados e mensurados.
Constantemente vocês devem ouvir seus gerentes, consultores e eu mesmo falando da relação entre risco e retorno dos investimentos. Genericamente, parece que basta fazermos uma conta simples e poderemos verificar qual ativo ou combinação de ativos é mais eficiente. Desculpem decepcioná-los novamente (como no último post), mas não é tão simples assim. Eu aprendi com um grande risk manager, Fábio Jabur, que todo ativo não possui apenas um risco e sim uma matriz de riscos.

E o que isso quer dizer? Que como investidores estamos ferrados, vamos sempre perder dinheiro?
A resposta é NÃO. Ferrados, não. Como investidores, nós estamos fadados a ter que optar pelo tipo e pela quantidade de risco que queremos correr para conseguirmos maiores retornos. Sim, como eu já disse aqui e vou repetir algumas vezes, no mercado financeiro não existe mágica. Além disso, risco não é um sinal de que se irá perder dinheiro, o risco serve para nos alertar de que estamos dispostos a perder algum dinheiro para tentar ganhar mais.

Ótimo. Então como fazemos para saber quais os riscos que estou correndo e quais os que estamos dispostos a correr?

O risco mais aparente entre os ativos é o risco de mercado, que pode ser percebido e medido pela oscilação do preço do ativo. Comumente é expressado pela volatilidade dos retornos, calculada pela medida estatística de dispersão desvio-padrão, que deve ser lida como uma fotografia passada do quanto o valor daquele ativo oscilou (para cima e para baixo) em um determinado período. De tal sorte que quanto maior a volatilidade do ativo, maior o seu risco e devemos esperar (exigir) maior retorno.

Outro risco que estamos habituados a ouvir é o risco de crédito. Esse tipo de risco está associado a probabilidade de o devedor não pagar o que te deve, ou seja, está ligado a operações de crédito ou empréstimo. Na minha opinião, mensurar o risco de crédito é uma das coisas mais difíceis do mercado financeiro, pois apesar de haver análises complexas para identificar o potencial de default (calote), só conseguimos perceber este risco quando o evento já ocorreu. Nesse contexto, podemos perceber os diferentes níveis de risco de crédito pelo quanto cada ativo promete remunerar (caso não haja default) ao credor. Enquanto um título público federal (LFT) rende 11,69% ao ano, os juros do seu cheque especial estão entre 160% e 190% ao ano, isso mostra que o risco de o governo não te pagar pelo empréstimo que você concedeu via LFT é muito menor do que o risco que seu banco pode mensurar de você não pagar o cheque especial.

Mais um risco importante presente nos ativos é o risco de liquidez. Esse é bem simples de entender, mas não tão simples de mensurar em alguns casos. A liquidez de algum ativo é medida pela capacidade de transformar aquele ativo em dinheiro, em moeda. Sendo assim, o risco de liquidez nada mais é do que a dificuldade de transformar o ativo em questão em dinheiro, ou seja vender tal ativo no mercado. Há vários ativos que possuem prazo determinado, que possuem vencimento, nesses casos é fácil de mensurar a liquidez; mas o que possui maior risco de liquidez, uma casa na praia ou um terreno na rodovia Castelo Branco? Mesmo deduzindo qual dos dois é mais líquido, quão mais líquido um é em relação ao outro?
Novamente, quanto maior o risco de liquidez maior deve ser o prêmio em termos de retorno para o ativo analisado.

Existe uma outra lista extensa de riscos que poderíamos desenvolver aqui e discutir a fundo cada um deles - risco de execução, risco operacional, risco de crossborder, risco legal, risco de imagem, risco de compliance etc. -, mas eu gostaria de exercitar apenas mais um que julgo absolutamente relevante, o risco de gestão ou risco de decisão.
É um tipo de risco muito pouco óbvio e que envolve mais coisas que propriamente acertar ou errar uma decisão de investimento. Eu me refiro ao modo como se toma a decisão, qual é o processo que faz o gestor ou consultor optar por escolher um ativo ou outro.
Um exemplo bom que podemos usar sobre isso é diferenciar "gurus" do mercado aos conhecedores e estudiosos do mesmo mercado. No primeiro caso, parece que as decisões não possuem embasamento técnico robusto, às vezes beira um golpe de sorte, o que provavelmente não vai gerar a consistência que tanto procuramos em wealth management; já no segundo caso, conforma analisamos a estrutura de decisão do gestor em questão percebemos que há um aprendizado ao longo do tempo e que a capacidade deste de acertar suas escolhas no futuro tende a melhorar, tende a ser consistente.
Outro exemplo vem da mistura de riscos que às vezes nos deparamos. Alguns investidores insistem em achar que é mais arriscado eu, como wealth manager independente, recomendar a compra de um CDB do banco X do que o gerente da conta dele no banco X fazer a mesma recomendação de compra do CDB. A mistura de riscos que me refiro está na confusão entre o risco de crédito e o risco de decisão. Os dois agentes (eu e o gerente do banco X) estão recomendando o mesmo risco de crédito, mas o alerta que eu faço é, o que está por trás da decisão de cada um dos agentes em recomendar a compra do tal CDB? Quais são os interesses, alinhamentos, remunerações e conflitos que podem haver entre cada processo de tomada de decisão? (Nós vamos explorar um pouco mais sobre conflito de interesses, alinhamentos e remunerações mais para frente)

Por fim, devo dizer que você não precisa, tampouco tem a obrigação de, saber todos os riscos inerentes a cada investimento que você faz. Seu wealth manager deve saber de grande parte deles e tem a obrigação de consultar profissionais especializados em outros (advogados no caso de risco legal; engenheiros no caso de risco de execução de obras, por exemplo) para expô-los com detalhes e ajudá-lo a balizar quanto está disposto a correr de cada tipo de risco.
Correr risco é fundamental para se ter retornos no mercado financeiro, porém existem riscos desnecessários e incompatíveis com cada perfil de investidor. Não tome mais risco do que for preciso, não tome risco sem mensurá-lo e, principalmente, mantenha suas expectativas alinhadas com o que é possível de se conseguir no mercado. There's no free lunch!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dicas de ações para ficar milionário. Desculpem, mas não existe mágica!

Antes de começar a escrever sobre o tema de hoje, quero me desculpar com aqueles que tentaram deixar comentários e não conseguiram por não terem conta no Google. Como sou novato no mundo dos blogs ainda não descobri como faço para resolver isso, tal logo eu tiver uma solução eu avisarei aqui.

Algumas pessoas têm me perguntado se aqui no blog eu vou postar "dicas de ações" para montar uma carteira. Para responder a esta questão, eu vou aproveitar e expor minha opinião sobre como devemos olhar para nossa carteira de ações.

Bom, a resposta é bem óbvia para aqueles que me conhecem: NÃO!
Por basicamente 2 motivos: para emitir uma opinião pública e técnica sobre qualquer empresa eu teria que ser certificado pela Apimec; e eu não acredito (e oriento vocês a desconfiarem) em dicas do "papelzinho" daquela empresa que vai subir muito nos próximos dias ou semanas, isso cheira a aposta sem embasamento ou, pior, a informação privilegiada (o que é crime).

Para mim existem, em suma, 3 formas de investimento no mercado de ações:

Surfar onda do mercado: compra-se ações de empresas que pertencem ao Indice Bovespa, o próprio índice (através do BOVA11) ou fundos de ações passivos/indexados.
Se for comprar ações diretamente na pessoa física, escolha uma corretora de confiança, que te cobre barato pela corretagem e custódia e esteja atento ao imposto de renda (nas vendas com lucro não deixe de recolher a DARF no mês seguinte, existe um pedacinho do IR que é retido na fonte pela corretora, portanto fica mais fácil da Receita Federal identificar sonegação). Se o seu corretor te incentivar a compra e vender muitas vezes - girar a carteira - fique ainda mais atento ao valor da corretagem e alinhe com ele quais são seus objetivos com a carteira.
Se optar por ter fundos de ações passivos/indexados, atentem-se para a taxa de administração, que deve ser bem baixinha pois não há muita necessidade de gestão neste tipo de fundo, e taxa de performance, que não faz o menor sentido dado que o objetivo do fundo é acompanhar e não superar o benchmark (índice de referência). Sendo assim, prefira o BOVA11 (os ETFs serão devidamente explicados posteriormente), que acompanha muito bem o Ibovespa e são muito fáceis de negociar, como uma ação.
Com esta forma de investir no mercado de ações, muito provavelmente o resultado da sua carteira será sabido quando ouvir no Jornal Nacional: A bolsa de valores de São Paulo operou em alta/baixa de X,X%.
Lembrem-se que o mercado de ações Ibovespa não é sempre promissor, mas é muito difícil saber quando entrar ou sair. Se você tem dúvidas sobre o seu perfil para ter ações na sua carteira, responda para si mesmo a seguinte pergunta: Eu prefiro estar no mercado de ações quando ele cai ou não estar quando ele sobe? As duas situações vão acontecer recorrentemente, portanto deve estar preparado.

Alocação tática: talvez tenha sido a forma mais estudada no mercado financeiro nos últimos anos. Alguns se utilizam de uma série de medidas estatísticas para traçar em seus gráficos tendências e reversões na tentativa de capturar movimentos repetitivos ou ciclos de preços de uma ação. Existem ainda especialistas que possuem algoritmos parrudos, com cálculos computacionais extremamente complexos para tentar identificar o "comportamento" do mercado.
Eu acredito que estes métodos podem funcionar para grandes fundos em mercados já maduros (exemplo o fundo norte-americano Renassience), pois exige uma equipe muito atenta aos mínimos movimentos dos preços, super computadores e séries estatísticas longas e de fácil acesso. Desconfie de "robozinhos" que prometem render 1% ou 2% ao dia, isso eqüivale a 1.127% ou 14.597% ao ano, respectivamente. No mercado não existem mágicas e muito menos uma pessoa somente que saiba ganhar dinheiro.

Investimento estratégico de longo prazo: para mim é a forma que realmente tem feito, e continuará fazendo, pessoas obterem excelente retornos ao longo do tempo. Para tanto, as empresas devem ser mais importantes do que simploriamente os preços de suas ações. O que quero dizer com isso é que se deve conhecer com profundidade as empresas antes de comprar suas ações, porque mais do investir nas ações da companhia você deve se tornar e ter postura de sócio. Fazer o que chamamos de value investing (deverei dedicar um post só para falar disso também, porque merece).
Para se analisar com profundidade uma empresa é necessário conhecimento técnico de finanças, contabilidade, estudar o setor, a cadeia econômica, conversar com fornecedores e clientes da empresa, visitá-la algumas vezes e principalmente não ter pressa em tomar a decisão de investimento. Requer ainda monitoramento pós-investimento e constante olhar crítico para não se "apaixonar" pela empresa (talvez uma das coisas mais difíceis depois de se dedicar tanto ao estudo da mesma). Tamanha complexidade e necessidade de dedicação me leva a crer que esta forma de investimento no mercado de ações é um trabalho para profissionais. Ou seja, você não irá enriquecer com a dica lida num fórum da internet. Prefira os gestores especialistas, com histórico longo e consistente, com equipe capaz de fazer todo o trabalho que descrevi aqui e que saibam explicar os bons e maus retornos que tiveram e, ainda, o porque de estarem investidos em cada uma das empresas. (Se alguém se interessar, não tenho problema em citar alguns que já analisei e fazem bem esta estratégia).
Não espere que com esta forma de investimento sua carteira acompanhe os índices de ações triviais. Tal estratégia acaba se caracterizando por ter baixa correlação (tópico para um post de sexta-feira) com demais ativos do mercado, então ao mesmo tempo que pode ser um bom diversificador para portfólios, exige mais cuidado e analise antes de se tornar seu próximo investimento.

Podem ter certeza de algumas coisas também: você não terá ações daquela empresa que ninguém conhecia e subiu 150% ontem; aquele seu amigo do clube, metido a Warren Buffett especulador (uma expressão totalmente incompatível), sempre te contará apenas os maiores ganhos da carteira dele, nunca os menores e muito menos as perdas; todos os anos aparecem 2 ou 3 gestores com retornos astronômicos, se você não era um dos cotistas desses fundos (provavelmente não será e seu amigo do clube vai te dizer que pegou toda a alta) inicialmente desconfie, observe o que compõe a carteira do fundo (pergunte ao seu wealth manager ou veja no site da CVM), veja como foram os últimos 3, 5 e 10 anos do gestor (se é que ele existia nesses períodos) e finalmente nunca coloque todo o seu dinheiro no risco de uma única idéia (se decidir por investir); e o mais importante é que seus investimentos não atrapalhem seu dia-a-dia, tirando o seu sono ou te fazendo perder o foco da sua atividade principal, seja investindo sozinho ou delegando a um wealth manager - mantenha as suas expectativas alinhadas à realidade das suas escolhas.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O que esperar do seu Wealth Manager ?

Primeiramente me desculpem pelos dias que fiquei sem escrever nada aqui. Não quero perder a frequência principalmente para que não deixemos as discussões esfriarem.

Como eu comecei falando da função de wealth manager, ainda acho que faltam alguns temas para abordarmos aqui antes de começarmos a falar de estratégias, ativos e economia.
Nos últimos dias tenho conversado com alguns amigos do mercado financeiro, alguns deles consultores financeiros e outros clientes de private banking. A percepção deles, assim como a minha, é de que as pessoas procuram wealth managers para obterem mais rentabilidade em suas aplicações financeiras, pura e simplesmente.
Muitas vezes vocês vão ver aqui a minha opinião sobre coisas que eu não acho certas no mercado e seus players, em especial a forma de atuação conflitante dos bancos, corretoras, agentes autônomos, alocadores, distribuidores etc., mas hoje eu vou focar na falta de alinhamento de expectativa entre as pessoas e o que pode fazer o seu consultor.

Sejamos técnicos. A teoria de investimentos diz que 85% do que explica a rentabilidade de um portfólio é o que chamamos de estratégia de investimento; 10% vem da tática; e 5% da sorte (estar no lugar certo na hora certa). Sendo assim, seu wealth manager deve cuidar dos seus recursos baseado sempre no planejamento financeiro de longo prazo. Ou seja, o primeiro passo para se perpetuar riqueza é cuidar do lado da saída de caixa e na sequência se preocupar com a alocação para obter retornos.

Vamos detalhar um pouco mais isso.
As decisões de utilização de recursos (sejam eles dinheiro, tempo, espaço, preocupação etc.) devem ser tomadas por especialistas pois são eles que tem a maior capacidade de reunir todas as informações e conhecimento disponível para que a decisão tomada seja a mais eficiente.
Se você vai pagar para ter o serviço de um wealth manager, como no caso de uma consulta ao ortopedista ou um tratamento saudável para perder peso e melhorar o condicionamento, o valor terá que se justificar. Automaticamente as pessoas associam a geração de valor à rentabilidade, o que não é totalmente correto, pois o início da geração de valor para o negócio de cuidar das riquezas está ligada a não desperdiçar recursos.
Desta forma, a melhor maneira de começar um relacionamento com a pessoa que vai auxiliá-lo nas decisões financeiras é descrever em forma de inventário todas as alocações em ativos, detalhando de que forma foram adquiridos (data, procedência, estrutura fiscal e como estão declarados no IR (se declarados)).
Tenho poucas dúvidas de que seu wealth manager vai identificar que:

a) alguns dos ativos que você adquiriu (fundos, CDBs, ações de algumas empresas) são redundantes e desnecessários no seu portfólio;
b) alguns ativos estão em estruturas mais caras, financeira e/ou fiscalmente falando;
c) você possui ativos incompatíveis com seu perfil de risco e seu horizonte de investimento (especialmente se for cliente de private banking);
d) a última vez que precisou de dinheiro, seja para trocar de carro, para comprar um apartamento ou fazer a festa de 15 anos da sua filha, você não desinvestiu do melhor lugar que poderia.

Esses são alguns dos valores que o wealth manager deverá criar para a sua vida financeira antes de começar a "palpitar" sobre quais são os melhores ativos ou os mais rentáveis fundos do mercado.
O princípio de enriquecer está em o quanto você salva de dinheiro e não no quanto você ganha.

Boa noite e até amanhã.