segunda-feira, 30 de maio de 2011

Economia II: De que adianta olhar para o Superávit Primário?

Já se passaram 5 meses do novo governo. No que diz respeito a política monetária, o banco central começou seu discurso peitando a trivial combinação de se há pressão inflacionária a única medida possível é aumento da taxa de juros Selic, tendo visão mais ampla de que grande parte da inflação brasileira corrente não era controlável por alta de juros. Ouvimos falar também das tais "medidas macro-prudencias" e as palavras repetitivas (quase um alerta) para que os bancos segurassem um pouco o crescimento do crédito.
Nos últimos meses, especialmente depois da última reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária) já pudemos perceber o retrogrado BC sinalizando ciclo mais longo de alta de juros. Será que os raposões vão vencer a queda de braço e o BC vai voltar a ser coelhinho? Como explicitado um pouco há 2 posts atrás (clique para ler), ainda não sabemos esta resposta.

Ok, então o que isso tem a ver com o Superávit Primário?

Vamos tentar usar esta explicação do conceito para ratificar o motivo pelo qual teremos queda nos juros da economia brasileiro de qualquer forma.

Começamos a nos familiarizar com os termos déficit na transição do Cruzeiro Real para a URV (Unidade Real de Valor) e posteriormente para o Real. Apenas para equalizar o conhecimento déficit de qualquer coisa é quando a relação entre o quanto você recebe dessa coisa e o quanto você gasta da mesma coisa é negativa, ou seja gasta-se mais do que recebe-se.
O antônimo de déficit, por sua vez, é o superávit, termo que só viemos a nos familiarizar no final do primeiro mandato do FHC e se fortaleceu em:
FHC e Lula tomando um cafezinho
a) movimentos de desvalorização do câmbio, barateando a compra de produtos nacionais por estrangeiros (exportação) e encarecendo a compra de importados (importações) - Superávit da Balança Comercial
b) a partir do final do governo FHC e durante o governo Lula, desta vez com o Superávit Primário, quando as receitas do governo são superiores as suas despesas.

Mas de que maneira isso funciona como medida de saúde ou de sustentabilidade financeira do país?

O mais importante é entender a fundo como se dão as receitas e quais são as despesas, daí podemos interpretar melhor o superávit ou déficit primário. Chamamos de primário por tratar-se diretamente das receitas advindas dos tributação (fonte de recursos correntes do governo) e emgloba todas as despesas não financeiras do Estado (folha de pagamento, investimentos, previdência social, custos da máquina pública etc.).
O que podemos observar é que a "conquista" do superávit primário dos últimos anos deveu-se a aceleração da arrecadação de tributos, seja por aumento das alíquotas e principalmente pelo crescimento da economia, quando há elevação nominal do pagamento de tributos pela economia além da maior inclusão de pagadores formais de tributo (exemplo a migração de trabalhadores informais para economia formal). Como já discutimos aqui rapidamente (clique para ler), os cortes de gastos tem sido sempre marginais e não efetivos para para que possamos considerá-los na parte de queda nas despesas não financeiras do Estado.

Se puderam perceber, eu falei que no computo do Resultado Primário considera apenas as despesas não financeiras, ou seja, não entra na conta os juros pagos pelas dívidas do Estado. Se não vemos o pagamento de juros, tem algum outro indicador econômico que mostra isso?
Vou introduzir a vocês um conceito muito pouco explorado e que poucas pessoas (mesmo especialistas) estão familiarizados, por isso acabam achando pouco importante - chamamos de Necessidade de Financiamento do Setor Público (NFSP).
Olhar para a NFSP talvez seja a melhor maneira de verificar para onde está indo a capacidade financeira de um país. Então vamos fazer um exercício econômico e matemático?
Concordamos que de tudo que cada um de nós gera de receita parte vai para o governo em forma de tributos (impostos, taxas e contribuições). Ou seja, o governo é nosso sócio (apenas para os ganhos) o tempo todo.
Entendemos também que toda nossa renda somada é o que chamamos de PIB, de tal sorte que, além de participar da equação do PIB, parte do crescimento do PIB fica com o governo pelo pagamento dos nossos tributos.
Lembrem agora do que dissemos sobre o Resultado Primário (diferença entre receitas de tributos e despesas não financeiras do Estado). Podemos dizer, então, que a taxa de crescimento do superávit primário deve ser semelhante a taxa de crescimento do PIB (dado que as despesas não financeiras praticamente não mudam).
Pela equação da NFSP, um governo não poderia pagar mais de juros do que seu país é capaz de crescer.

De acordo com a OCDE (Organização pela Cooperação do Desenvolvimento Econômico), o crescimento médio do PIB mundial é de cerca de 4,5% aa, ao longo dos últimos 20 anos. Segundo a mesma OCDE, a taxa de juros média paga pelos países é de cerca de 4% aa. Coincidência?
Não é mesmo! Na estabilidade, a taxa de juros paga pelo governo não pode ser diferente da taxa de crescimento do PIB. Se o país crescer saudavelmente a 5% aa, logo logo teremos (exatamente, teremos) que ver os juros irem para próximo deste número.

Ratifico aqui a minha sugestão a vocês de que garantir o rendimento prefixado a taxa de 12% aa a 12,3% aa, apesar da alta volatilidade, me parece ser o melhor e menos arriscado que temos a fazer no momento para ganharmos dinheiro no longo prazo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Risco é igual a Volatilidade? Não, é bem diferente!

Nós já falarmos aqui um pouco sobre tipos de Riscos e sobre atenções que devemos ter em cada um deles. O que costumamos ver no mercado financeiro é a simplificação de tudo que é Risco expresso em termos de Volatilidade. Então vamos tentar estabelecer diferenças fundamentais entre Risco e Volatilidade.
É oportuno falar disso logo depois de termos colocado aqui aquela opinião sobre a oportunidade de se investir em Renda Fixa por mais de 10 anos. Assim, eu vou usar este exemplo do post anterior para explicar um pouco sobre o conceito de Risco e Volatilidade.

Devemos chamar de Risco a probabilidade de perda permanente ao longo de todo período de investimento. Ou seja, é uma probabilidade ou uma distribuição de probabilidades associadas a uma mudança negativa de cenário e a quedas irreversíveis do preço do ativo em questão. Há diversas formas de medir Risco e existem vários tipos de Risco, que para cada ativo e cada análise se faz mais relevante.
Já a Volatilidade é o movimento de oscilação do preço do tal ativo. É o reflexo da mudança de opinião dos agentes financeiros acerca do cenário. Como os preços em geral são dados pelo valor presente estimado daquele ativo, este tende a oscilar para cima e para baixo o tempo todo e só se converte em perda ou em lucro em caso de realização (venda) do ativo. Em geral é medido pelo cálculo estatístico do desvio-padrão dos retornos do ativo/portfolio.

Apesar da diferença clara de conceitos, o mercado financeiro tende a se confundir e a confundir os investidores. Mas será que eles não sabem o conceito ou preferem ser simplistas por conveniência?
Acho que o ponto fundamental para respondermos essa questão é retomarmos o conflito permanente entre os agentes do mercado financeiro e os investidores, para exemplificar podemos tentar desenvolver um raciocínio de dois Focos que podem ser dado às visões dentro do mercado financeiro:

Foco no Presente é a busca por minimizar a oscilação dos preços
- Intensifica a análise na Volatilidade
- Olha para o % do benchmark no curto prazo (e.g. 105% CDI no mês ou no ano)
- Está preocupado com o preço que pode vender o ativo hoje
- Vemos esta visão comumente nos traders (agentes que compram e vendem várias vezes os ativos em curtos intervalos de tempo)

Foco no Futuro é a busca por reduzir a oscilação dos retornos
- Intensifica a análise do Risco
- Olha para a rentabilidade completa do investimento (do começo ao fim)
- Está preocupado com a preservação dos rendimentos ao longo de todo o tempo
- É a visão dos investidores e dos empresários

Voltando para a nossa opinião a respeito do mercado de Renda Fixa Prefixada (post anterior), podemos extrair uma boa aplicação dos conceitos abordados acima.
Se investirmos em um ativo de Renda Fixa que remunera 12% aa por 10 anos, teremos 159,4% de rendimento no período. Porém, no mercado futuro de juros, se essa taxa de 12% aa for para 12,1% amanhã, nós veremos uma oscilação negativa no preço do ativo, porque poderíamos ter 
ganhado mais investindo a 12,1% aa. Apesar desta Volatilidade do preço do ativo por conta da curva futura de juros, o nosso Risco está vinculado a mudança de cenário em 10 anos, ou seja, na probabilidade dos juros serem menores nesse período. Se a Economia está melhorando, há controle de inflação (não em 2011 ou 2012, mas ao longo de 10 anos) e melhora na confiança das contas públicas, é factível pensarmos em juros de 6% aa daqui a 10 anos.
Desta forma, vemos que o Risco em ficar investido indexado aos juros correntes, acreditando ser mais conservador, é o cenário mudar para juros de 6% aa e como o foco estava em não ter Volatilidade isso pode ter distanciado o seu ganho dos 159,4% no período para casa de 100,0% (assumindo um cenário de queda gradual de juros em 10 anos).

Para concluir, se você quer ser um investidor foque seus esforços em analisar os riscos de cada investimento, como um empresário faz com os riscos de seus projetos. O mercado financeiro é cíclico, dando oportunidades para quem tem foco no futuro e causando muita dor de barriga para que acredita poder enriquecer no curto prazo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Será que ainda dá para ganhar dinheiro no Mercado Financeiro?

Andei ausente do blog nos últimos meses, peço desculpas àqueles que começaram a seguir e acabaram não tendo novidades vindas deste espaço. Agora voltei a todo vapor! Espero escrever alguma coisinha aqui pelo menos 2 ou 3 vezes por semana, falando de coisas do momento e atendendo a pedidos conceituais dos amigos e familiares. Justamente por isso resolvi voltar a escrever frequentemente.
Como faz tempo que não uso o blog, vamos aproveitar para falar de oportunidade de investimento combinada a alguns conceitos econômicos por trás disso.

Já estamos no final de Maio e as análises de todas as boas casas previam que este seria um ano de alta na bolsa. Até o momento, o Ibovespa acumula queda de 8,95% e deveriam questionar as previsões dos especialistas? Acredito que não, porém devemos ser mais minuciosos com nossas análises e separar alguns conceitos importantes que podem reforçar a nossa tese atual de oportunidade de investimento.
A principal porção do Ibovespa que contribuiu para esta forte queda foram as ações de empresas ligadas a commodities (especialmente metálicas), não porque sejam empresas ruins, mas existem preços na economia que são dados por um conjunto de fatores alheios a vontade dos investidores - a isso damos o nome de mercado internacional.
Não podemos deixar de comentar o desempenho das ações do setor financeiro, o que está intimamente ligado ao assunto que falaremos hoje e o conflito mais evidente que temos nos agentes econômicos brasileiros.
Algo que pode validar as previsões dos especialistas é que nem tudo vai mal na bolsa brasileira. Se olharmos o detalhe das relatórios do começo do ano, apesar de focarem sempre no Ibovespa, já há 2 anos pelo menos ouvimos falar do mercado local e de comprar ações de empresas vinculadas a melhora clara do poderde compra doméstico. Caros, isso não é Ibovespa. Apenas 20% do Ibovespa corresponde a cerda de 80% do PIB, ou seja, Ibovespa é mais mercado internacional do que local.Mas não se desesperem, tem gente especializada em analisar e investir em empresas fora do índice. Eu já falei sobre isso aqui, mas acho que desta vez vale citar alguns nomes de gestores especializados em investir em ações que já venho observando há alguns anos: Guepardo, Orbe, Quest e RB Fundamental. Ainda vale olhar para casas mais novas, como: Duna, JB, M Square, Mercatto, Iguana entre outras. Bom, recado dado para renda variável, vamos ao que interessa. Para mim, o momento é aproveitar a oportunidade do mercado Prefixado de Renda Fixa.

Primeiro o conceito econômico:
Diferentemente do que vemos no dia a dia do Jornal Nacional ou do Estadão, no país não existe apenas uma taxa de juros - a conhecida Selic ou (erroneamente) chamada de taxa básica. Dentro do mercado financeiro se trabalha uma outra taxa de juros, parecida com a Selic porém construida de forma completamente diferente, que os investidores até já se acostumaram - o tal CDI. (em um post de economia eu detalharei mais a diferença entre elas e em que momentos elas foram muito diferentes)
Se não bastasse termos essa diferença entre Selic e CDI, os investidores profissionais (tesourarias de bancos, fundos de investimentos, fundações etc) não olham apenas para a taxa de juros correntes, os atuais 12% aa (Selic) e 11,90% aa (CDI), tem acesso a um mercado pouco explorado pelos demais investidores, o mercado Futuro de Juros.

A função do mercado futuro de juros e mostrar como os agentes da economia estão descrevendo sua expectativas com relação a combinação Juros Real e Inflação. Isso posto, não podemos afirmar que os juros em uma determinada data no futuro será um valor ou outro, só podemos dizer olhando
para o mercado futuro as estimativas dos agentes.
Então o que podemos ler dos agentes na atual curva de juros?
Para isso o exercício matemático é um pouquinho mais chato, mas como eu já fiz vamos as conclusões:

- Até 2025 os agentes acreditam que os juros acumulados ficaram acima de 12% aa. Ou seja, mesmo que a eco ima melhore, que o país consiga crescer a taxas proporcionais a sua capacidade e que o mundo cresce em média de 4% a 5% aa, nossa taxa de juros (o custo de dinheiro) ao longo de 14
anos não cairá em momento algum;
- Para que isso seja factível, também vemos que a inflação não cederá abaixo de 5,8% aa em média, todos os próximos 14 anos. Ou seja, nossa inflação será durante 14 anos acima do crescimento mundial da economia.

Vamos mudar a pergunta para tentar esclarecer: será que ninguém do mercado fez essa conta, só nos? Por que os raposões do mercado estariam se comportando como coelhinhos?
Realmente nós não somos os "gurus ganhadores de dinheiro" no mundo. Mas desta forma, admitindo que as tesourarias dos bancos não viraram coelhinhos, podemos descrever o conflito mais presente na economia brasileira: autoridade monetária x tesourarias dos bancos.
Eu sei que já falei aqui da importância do constante conflito entre autoridade fiscal e autoridade monetária, porém sabem que no Brasil a autoridade fiscal é dada, não muda e é gastadora. Por isso eu chamo atenção para esta relação entre tesourarias e banco central.
Nos últimos meses vimos o banco central bater na tecla de que a inflação corrente já não tem como ser controlada por política monetária e que os ajustes de juros que eram necessário já tinham sido feitos. Por outro lado, frisava que as chamadas "medidas macro-prudenciais" passariam a ser mais utilizadas para conter o crédito e reduzir o ímpeto pelo consumo.

Pausa: devemos olhar para este discurso com bons olhos. O banco central mostrou lucidez ao entender que boa parte do efeito sobre os preços advém do mercado internacional (é, aquele mesmo que tem derrubado o Ibovespa) e que as altas dos metais e alimentos estavam próximas de arrefecer. Portanto, as consequências sobre os índices de preços domésticos acompanhariam isso. Mas isso só funciona se você combinar o jogo com os adversários.

Vamos aos raposões. Se você tem um banco que ganha mais dinheiro se ele aumentar o volume de empréstimos e cobrar mais por isso, por que raios você gostaria de colaborar com a queda dos juros e a diminuição do crescimento do crédito?
Durante anos, quando o banco central sinalizava alguma medida menos vantajosa para os bancos, os efeitos já eram conhecidos. Por serem os maiores operadores do mercado futuro de juros, principalmente os mais longos, as tesourarias usavam o seu poder sobre o mercado para abrir (elevar o nível) da curva de juros na parte mais longa; com isso, os investidores (estrangeiros) viam uma alta precificação de inflação para o futuro e rapidamente retiravam recursos do país; o efeito da saída de dólares é a depreciação do câmbio, o que por fim pressiona a inflação no curto prazo fazendo o banco central de
coelhinho e tendo que aumentar juros.

Historinha contada, será que estamos na mesma situação agora?
Dá pra dizer que não e que sim.
Primeiro que não existe mais pressão cambial contra o Real há algum tempo, pelo contrário, a pressão tem sido a favor. Isso enfraquece a "estratégia" na queda de braço das tesourarias.
Por outro lado, os bancos podem continuar expandindo o credito e contribuindo para aumento do consumo local, o que pode sim geral aumento nos preços.
O que vemos nas curvas futuras é que a tal queda de braço está nos gerando uma oportunidade interessante de ficar investidos Prefixados por mais de 10 anos à taxa superior a 12% aa. Isso quer dizer que você pode não ganhar muito dinheiro nos próximos meses, talvez até nos próximos 1 ou 2 anos, mas garantir um rendimento em Renda Fixa superior a 12% aa por mais de 10 anos.