Como a analogia entre finanças e medicina foi bem compreendida no post de ontem, vou continuar me utilizando deste recurso para falar hoje sobre como podemos escolher quem deve cuidar das nossas riquezas.
Voltando ao exemplo da cirurgia do meu joelho esquerdo, apesar de ser extremamente simples (aparentemente) precisei de uma série de procedimentos pré-operatório e pós-operatório, tão importantes quanto a cirurgia em si.
A preparação envolvia a análise do meu histórico de saúde familiar, exames de sangue, eletrocardiograma e internação em hospital especializado para o trabalho das enfermeiras e anestesista poder ser feito da melhor forma possível. A importância das atividades pré-operatórias é tão grande que pode ser fator condicional para o sucesso da operação.
No caso do pós-operatório não é muito diferente. Mais de 1 hora após terminar a cirurgia eu tive que permanecer em uma sala sob observação; fiquei no hospital até o final do dia (a cirurgia foi 8h da manhã) esperando o efeito da anestesia passar. Consultas ao médico, troca de curativos, acompanhamento da cicatrização e 20 sessões de fisioterapia, tudo isso para garantir que o trabalho feito obteve o resultado esperado - curar os problemas do meu joelho esquerdo.
Para consertar o meu joelho esquerdo não bastou escolher um médico ortopedista especializado, porque não é só o profissional que está envolvido no processo e não é só ele que pode comprometer o sucesso ou o fracasso de uma cirurgia.
Transportando para a realidade do mercado financeiro, para se fazer wealth management como indica a literatura não basta apenas um profissional capacitado. Não basta um banco grande e com estrutura (como o hospital). Não basta corretores, officers, fundos, relatórios etc. Wealth management precisa de tudo que há disponível para se tomar decisões e precisa ter acesso a todas as ferramentas que proporcionem ao processo transparência, eficiência e monitoramento.
No Brasil podemos ter acesso a este tipo de serviço, basicamente, através de Private Banking, Family-Offices e Consultores Independentes (os Agentes Autônomos de Investimentos acabam se confundindo, por enquanto, com consultores independentes devido a um impasse de regulamentação da CVM).
Grande parte da riqueza dos brasileiros com recursos investidos está sob a "tutela" dos private banking, que além de prestar o serviço de banking (conta corrente/investimento, cartão de crédito, internet banking etc), também vendem fundos proprietários, fundos de outros gestores, produtos de renda fixa proprietários, serviço de corretora de valores etc. A estrutura mais encontrada no mercado é a de gerentes de relacionamento (private banker) em conjunto com um consultor de investimentos, cuidam da carteira de investimentos do cliente.
Quando falamos de family-offices (ou as multi-family-offices, quando trata-se de várias famílias) o foco está no gererenciamento da riqueza de um grupo de pessoas da mesma família, que podem diferir em perfil de risco ou momento de vida, mas têm como objetivo comum perpetuar os recursos através das gerações. Ainda não é muito comum no Brasil, por exigir um grande volume de recursos para justificar a estrutura, porém vêm crescendo a passos largos com o aumento do número de milinários e bilionários.
Já os consultores independentes, por ainda não estarem devidamente regulamentados, acabam atuando vezes como family-officers outras vezes em parceria com bancos, asset managements ou corretoras (agêntes autônomos). Por enquanto vemos poucos atuarem realmente de forma independente, principalmente no que se refere a forma de remuneração.
Uma pequena reportagem da AE de Outubro/2009, falando sobre o que ela chama de 'butique de investimentos', vale ser lida como informação adicional.
Assim como na escolha de um médico para cuidar da sua saúde, o principal fator para escolha do seu wealth manager é a confiança que você consegue delegar a ele.
Como comparado acima, a importância de o wealth manager conhecer suas necessidade, seu fluxo de caixa, seus projetos de consumo, sua declaração de IR ou qualquer outra informação pertinente para que se possa traçar um plano financeiro, fiscal e sucessório é fundamental para o sucesso ou o fracasso do processo. Se você não puder confiar no seu wealth manager, não adiantará ele ser competente, ter estrutura operacional ou obter os maiores retornos. Lembre-se de que wealth management, bem como o conserto do meu joelho esquedo, não pode estar limitado apenas a "operação" para podermos esperar melhores resultados.


